20050112

Lending hope to the troubled masses yearning to be executives

E eis-me surpreendentemente retornando à carga com a primordial rádioaficção, feliz com minha mais nova aquisição. Ser tomado de súbito pela ânsia da rádioescuta jamais figurou em minhas vastas bibliotecas de eventos possíveis, obsessiva e minuciosamente levantados em meus tradicionais exercícios de worst-case analysis. Talvez, conjecturo, por resultar este em um ajuste contra-intuitivamente positivo.

Em uma era pré-'difusão em larga escala' da Internet, não restava outra coisa a um garoto interiorano devorador de enciclopédias e ávido por novas maneiras de expandir os limites que não voltar-se à 'infinitude' e diversidade de informações publicamente disponíveis em cada milímetro do espectro eletromagnético. Da luz visível ao rádio, e deste de volta à primeira, conformou-se o profundo interesse pela astronomia, com maior atenção à rádioastronomia. À época, sob intensa e continuada excitação (a transitoriedade inerente a um INTP ainda não se revelara), não tinha dúvidas quanto a estar na rádioastronomia meu destino, com objetivos oficiais acadêmicos. A estrutura era eficientemente alimentada pela rádioescuta internacional na faixa de comprimentos de onda que responde pela designação 'short-wave' (3 MHz a 30 MHz). O dexismo sempre me foi associado à ilimitação e a um quase heroísmo: uma luva de pelica a roçar as convicções quanto a habilidades e conhecimentos de receptores, dispositivos eletrônicos, antenas, condições de propagação e idiomas. O sistema já contou com maior sentido prático, no entanto, enquanto havia blocos a desestabilizar por força da informação. Certo que ainda hoje há quem empregue o expediente broadcast-jamming , mas as razões e influências são muito mais localizadas. De todo modo, é engraçado notar o rádio ainda a sobrepujar a Internet como meio de obter informações de Ulaanbaatar, ou sobre a vida cultural em Tashkent. O fato é que meu apego à rádioescuta, e por conseqüência a certeza da rádioastronomia, terminou sucumbindo às dificuldades de acomodar os velhos interesses a uma realidade repleta de pressões práticas. Não que o academicismo tenha me consumido, mas os novos estados de excitação eram mais fortes que meu bom-senso. Surgiram daí redes neurais artificiais, dinâmica não-linear e mais recentemente teoria de jogos, sendo perfeitamente observável uma gradativa busca pelo núcleo das coisas, com várias camadas de superfície ficando para trás a cada transição. E é aí que a coerência começa a se manifestar.

O retorno da rádioescuta coincide com um crescente desprazer pelo uso atual que tenho feito da Internet, mas também de computadores em geral. Ando cansado de distrações, do conseqüente estado de letargia, do ruído de fundo de um passado descontrolado que ainda posso captar. Passar tanto tempo sentado, em más posições, diante desses trambolhos, a saturar os sentidos, tem sido cada vez mais difícil de justificar racionalmente. Engendra-se insatisfações com o desempenho enquanto sequer as necessidades básicas são atendidas. O prazer agora me parece estar no minimalismo que estranhamente abre portas para a diversidade.

Vejo-me, assustado, na iminência de tornar-me um text-mode guerrilla: P2Ps em 6 linhas de código em Perl, web browsers confiáveis e rápidos, media players, instant messaging multi-protocolo, editores, perdendo poucas funções exibidas por seus equivalentes gráficos. Não há como não se deixar encantar pela substância. Os autores das aplicações tendem a simplificar os ajustes básicos (e.g., por meio do uso de teclas mais intuitivamente relacionadas às correspondentes ações, ainda significando maior rapidez e a possível e bem-vinda subutilização do mouse), agregando uma flexibilidade a permitir um nível de personalização impensado nos grandes nomes em GUI, mas nem por isso inacessível. Sutileza, equilíbrio estético, confiabilidade, satisfação com o encaixe perfeito às suas necessidades mais caras -- e consciente do seu caráter oscilante --, espaço para diversidade. Razões suficientes para que possamos defenestrar boa parte das aplicações gráficas e desfrutar o prazer da essência. E o retorno da rádioescuta é também um passo coerente nessa direção. É hora de alcançar uma vida mais saudável, profunda, relativamente bem planejada, eficiente em seus itens. Quero ler a Economist deitado na grama do Ibirapuera, ter tempo para expedições à Lapônia a dividir observações astronômicas e radiofônicas, para aprender romeno, para manter uma produção netal razoável e organizada. Antes de tudo, tempo e leveza de consciência para conhecer lugares, pessoas e obras, tempo para refletir e ir muito além da superfície, para lapidar o método, para completar a têmpera anímica.

Uma das conseqüências gerais deste autor como cidadão netal é a inevitável centralização das atividades virtuais. O efeito mais evidente a ser, provavelmente, a migração para o atualmente abandonado espaço no Multiply, projetos coletivos (e sérios) à parte. Finalmente não há mais espaço para o desgoverno.